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domingo, 1 de novembro de 2009

Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar
Depois abri o mar com as mãos
Para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas

O vento vem vindo de longe
A noite se curva de frio
Debaixo da água vai morrendo
Meu sonho dentro de um navio

Chorarei quando for preciso
Para fazer com que o mar cresça
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho desapareça

Depois tudo estará perfeito
Praia lisa, águas ordenadas,
Meus olhos secos como pedras
E as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

Um poema para os meus amigos que me deixaram os parabéns no dia 28 de Outubro

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Regresso à poesia


Bebido o luar
Sophia de Mello Breyner Andresen

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por quê jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por quê o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

sábado, 25 de abril de 2009

Onde estavas no 25 de Abril?




















Foto google
Onde estavas no vinte e cinco de Abril?
Sim, onde estávamos no 25 de Abril e onde estamos hoje? Apesar de todos os (muitos) engulhos se fecharmos os olhos e fizermos uma retrospectiva dos últimos trinta e cinco anos, concluímos que este Portugal é muito diferente daquele em que vivíamos! E muito melhor a todos os níveis!
Para nós mulheres não faz sentido que precisássemos de autorização do cônjuge para sair do país! Mas precisávamos!
Os nossos jovens viviam na inquietação da ida para a guerra que lhes cortava as carreiras e por vezes a vida!Mas iam!
E o que dizer das suas famílias? Na década anterior ao 25 de Abril , a da minha adolescência e início da idade adulta,recordo um constante sobressalto na generalidade das famílias, porque toda a gente tinha algum jovem que veria a sua vida em suspenso por dois anos (pelo menos) para cumprir o seu dever de servir a Pátria numa longínqua e desconhecida terra a que chamávamos nossa!
Havia sempre um medo latente, medo que denunciassem algo que dissemos...lembro a minha mãe sempre a recomendar cuidado!
Este dia ofereceu-nos a Liberdade e eu congratular-me-ei sempre com o 25 de Abril!
Ah! Eu, no 25 de Abril fui dar aulas a meninos tão perspicazes, que ao meio da manhã já achavam que se devia retirar as célebres fotos que ladeavam o quadro da sala de aula!
O dia, de expectativa e regozijo, foi passado a ouvir os comunicados do posto de comando do Movimento das Forças Armadas!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Poetas de Abril


Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
Ary dos Santos

sábado, 4 de abril de 2009

A poesia passou por aqui


A minha terra tem o mar à volta
a minha terra tem o mar ao fundo.
A minha terra veste-se de mar,
o mar na minha terra é o seu mundo.

Na minha terra vive-se no mar,
que o mar,na minha terra, é ao fim da rua.
Na minha terra morre-se no mar
porque é no mar que a vida continua.


Mariano Calado, em Raízes de Maresia
Foto das ilhas açorianas de S.Jorge e Pico, tirada da ilha Graciosa

terça-feira, 31 de março de 2009

A poesia passou por aqui


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Luís de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.